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POR FIM, A SALVO



Do tijolo maciço, também chamado de tijolinho, surgiu a ideia. O dia passava sem pressa nem novidades, quando reparou, numa construção perto de casa, que os tijolos possuíam gravados o nome da olaria que os produziu. Ali estava o que há tempos andava buscando. A obra perene, construída agora para consagração futura.

Cada tijolo conteria uma frase, cuja continuidade estaria no tijolo seguinte da fiada. Cada capítulo corresponderia a um cômodo da casa. As janelas e portas, com seus vãos abertos na alvenaria, seriam as divisões em parágrafos, os respiros de leitura ou reviravoltas da trama. 

Deixaria instruções detalhadas, para quando chegasse a hora, sobre onde começar a escavação e resgatar com segurança o original, numa sequência lógica iniciada pelo prefácio - nos baldrames de alicerce, até chegar ao epílogo - no sótão. A remoção do reboco teria de ser feita com técnica e cuidado de arqueólogo, para que nenhuma palavra se perdesse e comprometesse o sentido da sentença. Sim, estava decidido. Escreveria o livro-casa. Ou construiria a casa-livro? 

Uma obra meticulosamente pensada, de conteúdo e forma irrepreensíveis e atemporais, já que não permitiria uma edição revista e atualizada. Assim teria de ser, caso contrário nem começaria a empreitada. Concluído o manuscrito em papel, na sua versão perfeita e definitiva, contrataria a produção cerâmica necessária. Teria de escrever sobre argila fresca, o que limitaria a produção a algumas dezenas de tijolos por dia. Trocaria a digitação no computador pelo trabalho artesanal na olaria. 

O papel esfarelar e apodrecer, o notebook enguiçar, as nuvens de dados explodirem: tudo o que pudesse acontecer não atingiria a obra final e perfeita de sua vida, a salvo para sempre, a menos que houvesse demolição ou terremoto. 

Começou. Mas em pouco tempo percebeu que o que julgava definitivo há três ou quatro dias, carecia na verdade de alguns reparos estilísticos, substituições de palavras, eliminações de advérbios e outros acertos. Isso implicava na destruição, a golpes de picareta, de metros e mais metros já rebocados e secos. E em pontos diversos da construção, dependendo do trecho que queria alterar. O cronograma da obra, previsto inicialmente para dois anos e meio, acabou se estendendo por dezessete anos e onze meses.

Quando, entretanto, chegou ao sótão, percebeu que o livro ainda estava inconclusivo. Por mais que aumentasse o tamanho desse último cômodo, mais o ponto final da trama se distanciava. Até que o sótão acabou por se tornar mais alto que a própria casa, criando um verdadeiro monstrengo arquitetônico. A solução seria erguer um "puxadinho", que acomodasse os capítulos excedentes e não programados no projeto original. Concluído o "puxadinho", ele partiu para uma edícula, depois para uma área de lazer com piscina, sauna, churrasqueira e forno para pizza. Um total de 1.348 metros quadrados de área construída, que armazenam em suas paredes um livro de 427 páginas. No momento, a obra aguarda liberação do "habite-se" na Prefeitura Municipal. 





© Direitos Reservados

Comentários

  1. E, prepare-se para o IPTU a ser cobrado...
    Genial a construção literária... Já a arquitetônica tornou-se "um elefante branco"...
    Abraço.

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  2. Ah, que lindo! 👏👏👏 Que você possa por a plaquinha "lar doce lar" ou seria "livro doce livro" ? 😁 Parabéns!

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  3. Maristela Faustino11:41 AM

    Ah, que lindo! ������ Que você possa por a plaquinha "lar doce lar" ou seria "livro doce livro" ? �� Parabéns!

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  4. Andre Albuquerque11:42 AM

    Excelente,uma metáfora á escrita e suas idiossincrasias.Parabéns,Marcelo.

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  5. Fernando Dezena11:43 AM

    no passo do oleiro
    tantos pensamentos perdidos
    quantos pedidos fincados
    na argila sem sentido

    tijolos são só palavras
    em busca do obreiro
    jogadas em dicionário
    na leitura do pedreiro

    e em jogos sobrepostas
    no nível no prumo certeiro
    faz morada ao leitor
    em colina o luzeiro

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  6. Antoniazi11:44 AM

    Nesse "passo a passo" poderia chegar`a uma construção equivalente a Quéops, Marcelo Pirajá Sguassábia.

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  7. Jorge Cortás Sader Filho11:46 AM

    Um 'puxadinho'. O país só tem puxadinhos, Marcelo. Ou estou delirando?

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  8. Clotilde Fascioni11:47 AM

    Vou rir até 2020 só de imaginar a quantidade de puxadinhos, pérgolas, marquises e casinhas de cachorros... Gostei da casa/livro. Eu gostaria de sair lendo esses tijolos. Delicia de texto, a sua criatividade é admirável, fico sempre aguardando a próxima criação. Boa semana meu amigo Marcelo

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  9. Lúcia Gonçalves4:09 PM

    Excelente....Parabéns...haja puxadinho ...rsrsrsrsr....

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    Respostas
    1. Marcelo Sguassábia4:10 PM

      Obrigado, Lúcia

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  10. Claudete Amaral11:16 AM

    Parabéns, Marcelo!


    Sua mente é, de fato, privilegiada!


    Abraços! Bom FDS


    Claudete

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