Pular para o conteúdo principal

AFFAIR VIRTUOSO



Cada um na sua webcam. No começo, uma gracinha aqui e outra ali. Não demorou muito, amantes remotos. 



- Bota o cachecol... bota o cachecol que eu enlouqueço logo de uma vez!

- Só se você colocar antes um gorro de lã. Mas tem que ser tipo capuz de bandido, daqueles que só ficam os olhos descobertos. 

- Tá, mas depois você promete que veste um casaco? Sobretudo é meu fetiche, sabia? Já te falei isso? Então. Quero três casacões bem grossos e felpudos, um em cima do outro, até você ficar curvado de tanto peso, sem poder mexer os braços e sem nenhum poro do corpo descoberto! Ui, só de pensar eu fico doidinha, doidinha. Megaexcitante!!!

- Mas como você é safada, heim?

- Então, aí você faz uma dança sensual em frente à câmera e aos poucos, bem devagarinho, vai abotoando os casacos no ritmo da música, até ficar tudo bem fechadinho até o pescoço.

- Ai, mas e se alguém resolve entrar aqui no quarto e me pega assim, vestidão - do jeito que não vim ao mundo? O que que eu vou dizer? Imagina a situação, vestido dos pés à cabeça!

- Isso é problema seu, quem mandou me provocar? Reconheça: você também está gostando...

- Sabe, um negócio que me tira do sério é marquinha de biquíni... Você bem que podia arrumar uma mala cheia deles, e ir mostrando, com essa sua carinha de sem vergonha, as etiquetas com as marcas de todos os biquínis que existem no mercado. Uau! Isso ia ser demais. Podemos fazer isso amanhã, né? Por enquanto manda uma selfie pra mim, todinha vestida. Por favor, só uma, vai...

- Esse negócio de tirar foto vestida e enviar pela net é um perigo. Aliás, dois perigos. Um hacker pode entrar nos arquivos do meu computador, achar as fotos comprometedoras e publicar. E você também, caso a gente brigue e pare com essa brincadeira, pode se vingar jogando as fotos na web.

- Então faz o seguinte, tira a foto do pescoço pra baixo, sem enquadrar o rosto... aí não vai ter jeito de alguém reconhecer você como dona do corpo cheinho de roupas. Concorda?

- Não sei, não. Vou pensar. Mesmo não mostrando o rosto, acho muito perigoso. Ainda se fosse um nudezinho inocente, mas de roupa... se algum conhecido vê, com que cara eu vou sair na rua?

- Tudo bem, então vamos parar por aqui.

- Mas logo agora que está ficando bom? Investi o que tinha e o que não tinha nessa relação, entrei em tudo que é crediário de loja, pedi dinheiro emprestado...

- Bom, então resolve o que você quer fazer. Mas uma coisa é certa: nua assim ninguém vai reparar em você. Nem na rua, nem na internet, nem em lugar nenhum. 

- Tô indo. Preciso de um tempo pra refletir sobre nosso caso. 

- Tá, mas e a burca? Você prometeu. 




© Direitos Reservados

Comentários

  1. Jamais esperava tal desfecho, Marcelo!! Estou refletindo... (risos...)

    ResponderExcluir
  2. Luciana Sleiman2:18 PM

    Perfeito! Adorei o "nua, assim, ninguém vai reparar em você". Muito fácil rs. Ao amigo de espelhos e sua família, votos - esses sim, por bem, nús e crus! - de um ótimo fim de semana

    ResponderExcluir
  3. Clotilde Fascioni2:18 PM

    hahahaha essa "invertida" foi sensacional. Adorei! Bom domingo meu querido

    ResponderExcluir
  4. Jorge Cortás Sader Filho2:20 PM

    In "Diários de Bagdá", por Marcelo Pirajá Sguassábia.

    ResponderExcluir
  5. Antoniazi2:21 PM

    Nua, hoje, é brega Marcelo Pirajá Sguassábia.

    ResponderExcluir
  6. Zezinha Lins2:21 PM

    É isso mesmo, o diferente certamente é melhor. Bom demais, Marcelo!!

    ResponderExcluir
  7. Rita Lavoyer2:22 PM

    Nossa, Marcelo, estou chocada com essa inversão de valores nas relações virtuais.
    Casacos, Burca !?

    ResponderExcluir
  8. Mary Maia2:23 PM

    A burca! Faltava a burca...rs... Mais um texto genial! Parabéns!!! Grande abraço, meu amigo.

    ResponderExcluir
  9. Claudete Amaral2:25 PM

    Um abraço pra vc....n/ precisa tanta roupa...só o normal!


    Claudete

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

A CAPITAL MUNDIAL DO BILBOQUÊ

Para os menores de 30, é natural não conhecê-lo. Então comecemos por uma sucinta porém honesta definição.

Bilboquê: originário da França, há cerca de 400 anos, foi o brinquedo favorito do rei Henrique III. Consiste em duas peças: uma bola com um furo e um pequeno bastão, presos um ao outro por um cordão. O jogador deve lançar a bola para o alto e tentar encaixá-la na parte mais fina do bastão. (fonte:www.desenvolvimentoeducacional.com.br).

Mais do que um brinquedo, Bilboquê é o nome de uma cidade, localizada a noroeste da pacata estância de Nhambu Mor. Chamada originalmente de Anthero Lontras, foi rebatizada devido ao número desproporcional de habitantes que fizeram do bilboquê a razão de suas vidas, dedicando-se ao artefato em tempo integral (incluindo-se aí os intervalos para as necessidades fisiológicas).

A tradição se mantém até hoje, ganhando novos e habilidosos adeptos. Nem bem raia o dia na cidade e já se ouvem os toc-tocs dos pinos tentando encaixar nas bolas. Uma distinção se…

O DESPERTADOR HUMANO

Junto com a Revolução Industrial – período de 1760 a algum momento entre 1820 e 1840 – vieram os empregos. Para não perderem a hora, existia o despertador humano, um profissional responsável por acordar as pessoas para que comparecessem ao trabalho pontualmente. O primeiro relógio-despertador foi criado em 1847, mas só se popularizou décadas depois. Assim, era comum ver pessoas com bambus ou varetas batendo nas vidraças ou atirando pedrinhas nas janelas daqueles que as contratavam.
(fonte: universoretro.com.br)





Fico imaginando o que seria dessa cidade caso eu tivesse escolhido outra coisa para fazer na vida. Se bobear, você mesmo pode ter sido acordado por mim hoje. 

Não há quem não precise de meus préstimos. Muitos podem pensar que não faz nenhum sentido um arrumador de pinos de boliche, por exemplo, necessitar dos serviços de um despertador humano. Ele não tem que acordar cedo, pois geralmente trabalha à noite. Só que ele troca a noite pelo dia, e se não houver ninguém para acordá-lo m…

PLASMEM!!!*

Eis que, entre tentativas e erros, feridos e mortos, a coisa – que é aquilo que mais se aproxima do sonho humano da eterna juventude, aparece finalmente em 2018 como algo plausível. Com 100% de eficácia em ratos, e ao que tudo indica em homens também.

Trata-se da transfusão de sangue de pessoas novas para mais velhas,  algo acalentado há séculos pela ciência. 

Mesmo ainda sem o aval definitivo dos pesquisadores envolvidos nos estudos, o pretenso milagre já está à disposição de quem tem bala para pagar. Nos Estados Unidos, há filas de gente, com 35 anos ou mais, sem dó de bancar 8.000 dólares por procedimento.  

Com a falta crônica de perspectivas de trabalho para os jovens do terceiro, do segundo e até do primeiro mundo, a nova técnica e sua disseminação trará, mais do que a perspectiva de rendimento, um doce meio de vida para a rapaziada até o momento tão sem norte.

Muitos sairão do desemprego para uma vida milionária, da noite para o dia. 
Não demora e aparecerão clínicas especializadas …