Pular para o conteúdo principal

MINISTÉRIO DA SOLIDARIEDADE



O governo da Inglaterra acaba de criar o Ministério da Solidão. Tido como epidemia oculta, o problema afeta mais de 9 milhões de britânicos, que trocariam o saldo bancário por um dedinho de prosa.

Mas se os ingleses são solitários, os brasileiros são por natureza solidários. Talvez aí resida a principal diferença entre os súditos da rainha, aparentemente tão tristes e cabisbaixos em sua nublada rotina, e nós, solares, extrovertidos e sempre sorrindo para a vida ou dando de ombro aos revezes. Um povo prestativo e solícito, pronto a ajudar por vocação, não por obrigação. 

O fato é que, da cinzenta ideia do Ministério da Solidão, surgiu ao Governo Federal a simpática iniciativa de instituir o Ministério da Solidariedade.

Como disse John Kennedy, com raro senso patriótico: "Não pergunte o que seu país pode fazer por você, e sim o que você pode fazer pelo seu país". Nosso Brasil não suporta mais tamanha carga tributária, que tanto onera o preço final dos produtos e o orçamento dos mais necessitados. Assim, ao invés de criarmos novos e impopulares impostos, incentivaremos a solidariedade de nossos cidadãos, para que espontaneamente doem recursos aos cofres públicos - o que é bem diferente da taxação compulsória. 

Sabe-se que todo o alto escalão do Ministério da Economia estará reunido hoje e nos próximos dias, em caráter de urgência, debruçando-se sobre as logísticas de arrecadação e os incentivos necessários a atrair o contribuinte. Uma das ideias em pauta é a emissão, em papel moeda marcado com brasão holográfico da República, do certificado "Cidadão Solidário", a ser entregue a todos os doadores de quantias superiores a R$1.500,00. Nele, o governo compromete-se a ser tolerante em demandas de fiscalização que não envolvam estelionato e outros delitos graves, como forma de recompensar a ajuda extra desembolsada pelo cidadão que aderir às doações. Obriga-se, ainda, a destinar os recursos provenientes da receita solidária exclusivamente à saúde, à educação e à segurança pública, com prestações de contas periódicas no Portal da Transparência. 





© Direitos Reservados

Comentários

  1. Se eu comentar... serei censurada!! Então, calo-me!
    Nos teoremas, a gente encerrava com cqd... Aqui é só trocar a letrinha c/d pelo p...
    Abraço.

    ResponderExcluir
  2. Cida Córdoba11:24 AM

    Assim é fácil governar um país, né....com os solidários doando de 1.500 para mais...o povo agora é que tem que sustentar a mordomia deles? E os impostos que já se pagam...me desculpem os que sāo a favor..,,eu sou contra.,,tbm nāo sei se isso é uma brincadeira do nosso amigo, Marcelo Pirajá Sguassábia...

    ResponderExcluir
  3. Hahahahahaha..... fique tranquila, minha amiga Cida Córdoba. Isso é uma sátira. Mas, do jeito que anda esse país, daqui a pouco vira realidade!

    ResponderExcluir
  4. Antoniazi11:25 AM

    Sempre há uma forma de colher "contribuição complementar" meu caro amigo Marcelo Pirajá Sguassábia. Recebemos os carnês do IPTU, em SJBVista, com uma guia para pagamento opcional de valor que será (assim afirmam) canalizado para cobrir o "rombo" que administradores deixaram nas finanças da Santa Casa de Misericórdia Dona Carolina Malheiros.
    1

    ResponderExcluir
  5. Paulo Marsiglio11:29 AM

    É a cara do Brasil essa "contribuição", ou seja, pague pelo silêncio da Receita Federal e demais orgãos fiscalizadores. Temer não teria tido uma ideia melhor!

    ResponderExcluir
  6. Jorge Cortás Sader Filho11:30 AM

    Dá ideia a estes cabras, Marcelo! Semana que vem já alguém leu sua crônica e levou cópia para o "departamento competente", aquele que lida com verbas, cargos... Ministério da Solidariedade!

    ResponderExcluir
  7. Só esclarecendo aos amigos: o citado Ministério da Solidão existe mesmo, foi criado no Reino Unido em janeiro deste ano.

    ResponderExcluir
  8. Clotilde Fascioni11:32 AM

    Do Ministério da Solidão faço parte e ser solidária é o meu lema, mas não para oferecer $1500,00 aos cofres, isso está parecendo coisa de algumas igreja$$ que vendem água em copo e vassouras à bagatela de $150,00... Não dá essas ideias "prosomi" não meu amigo Marcelo Pirajá Sguassábia. Bom domingo que agora vou tomar um copo de água e passar uma vassoura na porta de casa...

    ResponderExcluir
  9. Nicete Campos11:33 AM

    Prefiro a solidão honesta do que a solidariedade marginalizada. Excelente texto. Parabéns!

    ResponderExcluir
  10. Leda Valéria Supa Basile11:34 AM

    Como sempre, um texto criativo e impecável. Obrigada, Marcelo Pirajá Sguassábia, abração!

    ResponderExcluir
  11. Estão pensando que todos brasileiros são fiéis frequentadores de igrejas ?
    Sei não, acho que dará guerra entre essas duas facções: governo x igreja...
    Se essa solidariedade pega...

    ResponderExcluir
  12. Rita Lavoyer11:35 AM

    Estão pensando que todos brasileiros são fiéis frequentadores de igrejas ?
    Sei não, acho que dará guerra entre essas duas facções: governo x igreja...
    Se essa solidariedade pega...

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

A CAPITAL MUNDIAL DO BILBOQUÊ

Para os menores de 30, é natural não conhecê-lo. Então comecemos por uma sucinta porém honesta definição.

Bilboquê: originário da França, há cerca de 400 anos, foi o brinquedo favorito do rei Henrique III. Consiste em duas peças: uma bola com um furo e um pequeno bastão, presos um ao outro por um cordão. O jogador deve lançar a bola para o alto e tentar encaixá-la na parte mais fina do bastão. (fonte:www.desenvolvimentoeducacional.com.br).

Mais do que um brinquedo, Bilboquê é o nome de uma cidade, localizada a noroeste da pacata estância de Nhambu Mor. Chamada originalmente de Anthero Lontras, foi rebatizada devido ao número desproporcional de habitantes que fizeram do bilboquê a razão de suas vidas, dedicando-se ao artefato em tempo integral (incluindo-se aí os intervalos para as necessidades fisiológicas).

A tradição se mantém até hoje, ganhando novos e habilidosos adeptos. Nem bem raia o dia na cidade e já se ouvem os toc-tocs dos pinos tentando encaixar nas bolas. Uma distinção se…

O DESPERTADOR HUMANO

Junto com a Revolução Industrial – período de 1760 a algum momento entre 1820 e 1840 – vieram os empregos. Para não perderem a hora, existia o despertador humano, um profissional responsável por acordar as pessoas para que comparecessem ao trabalho pontualmente. O primeiro relógio-despertador foi criado em 1847, mas só se popularizou décadas depois. Assim, era comum ver pessoas com bambus ou varetas batendo nas vidraças ou atirando pedrinhas nas janelas daqueles que as contratavam.
(fonte: universoretro.com.br)





Fico imaginando o que seria dessa cidade caso eu tivesse escolhido outra coisa para fazer na vida. Se bobear, você mesmo pode ter sido acordado por mim hoje. 

Não há quem não precise de meus préstimos. Muitos podem pensar que não faz nenhum sentido um arrumador de pinos de boliche, por exemplo, necessitar dos serviços de um despertador humano. Ele não tem que acordar cedo, pois geralmente trabalha à noite. Só que ele troca a noite pelo dia, e se não houver ninguém para acordá-lo m…

SANTA LETÍCIA

Letícia, em seu compartimento estanque, se bastava. Vivia debaixo de uma campânula guardada por um querubim estrábico, numa imunidade vitalícia às dores do parto, à lavagem da louça, às filas nas repartições e à rabugice dos maridos sovinas e dominadores. “Façam o que quiserem, contanto que poupem a Letícia” era o veredito invariável sob qualquer pretexto e em qualquer ocasião, naqueles sítios de lagartos e desgraças.
Nada que se comparasse àquela que chamavam de Letícia, e que raras vezes se afastava de seus cães e de sua coleção de abajures. Era o tesão das rodas regadas a cerveja. Era a inveja e o assunto nos salões de beleza. Era o exemplo de virtude no sermão do padre, que botava as duas mãos no fogo do inferno e uma terceira se tivesse pela sua inteireza de caráter.
Assim a vida corria daquele jeito de costume, com a cidade a lhe estender tapetes, a lhe levar no colo e a lhe cobrir de afagos, soprando-lhe o dodói antes que se machucasse. Passou a ser o tema das redações escolares …