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DOZE ANOS SEM CANA




Doze anos de cana. Quem dera o sentido literal: doze anos de cachaça. Mas a sentença era inapelavelmente aquilo mesmo. Cento e quarenta e quatro meses vendo, a seco, o sol nascer quadrado. 

Fosse um preso comum, arranjaria com outros encarcerados o goró nosso de cada dia. Ou os gorós, quantos bastassem. O que não falta é jeito escamoteado de fazer a bebida circular com certa tranquilidade nas Alcatrazes tupiniquins. Pinga é artigo facilmente disponível no câmbio negro, como os cigarros, os créditos de celular e outras moedas de troca utilizadas pela turminha em recuperação. 

Mas a cela dele era especial, isolada. Essa era sua desgraça. Até o banho de sol era privativo, sem contato com ninguém. De que jeito arrumar a "marvada"?

Advogados, parentes, gente do partido, amigos, todos eram revistados antes das visitas. Revista brava, sem chance de entrar com qualquer coisa escondida. 

A primeira ideia, meio previsível, foi tirar proveito da notória proximidade com algumas megaempreiteiras (em grande medida responsáveis por conduzi-lo ao novo endereço). A intenção seria óbvia: conceber um túnel ligando a distribuidora de álcool da Petrobras mais próxima de Curitiba à cela do distinto. Ou seja, um "cachaçoduto". O problema é que o porte da obra, 100% executada em nível subterrâneo, com certeza despertaria alguma suspeita, isso se não chegasse a ser totalmente descoberta em razão de provável denúncia da imprensa, intriga da oposição ou delação premiada. 

A segunda alternativa, de execução mais prática e logística mais em conta, seria simular uma incurável e até então desconhecida mania de limpeza. O distúrbio obrigaria que se entregasse ao "doente" quantidades industriais de álcool doméstico, para dar vazão a um compulsivo esfrega-esfrega das grades, paredes, algemas e outras instalações e apetrechos do universo prisional. Evidentemente, os litros de Zulu seriam substituídos por aguardente tipo exportação antes de chegarem às ávidas mãos do dependente, numa orquestração organizacional de causar inveja a Al Capone nos idos da Lei Seca. 

Qualquer que seja a opção estratégica, será preciso agir rápido: há casos em que a falta do álcool causa mais estrago que o excesso dele. O mundo político sabe muito bem do que um abstêmio em desespero é capaz de fazer. E de falar. 



© Direitos Reservados


Comentários

  1. Adorei o novo empreendimento: - "cachaçoduto"!!
    Verbas não faltarão...
    Abraço.

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  2. Este comentário foi removido pelo autor.

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  3. ... se fosse outro tipo de ingestão alcoolica quem sabe não iria se candidatar a rezar missa... virava o padre local. E nem poderia dizer que lhe faltava congregação...

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  4. Claudete Amaral Bueno1:27 PM

    Marcelo:


    Eu n/ acredito que ele esteja sem "ela"! Existem os carcereiros......e, afinal,p/ o pessoal do PT...isso é "fichinha"!


    Fazer com que ela chegue às mãos dele, é o de menos....pelo menos, por causa do que vc disse: a falta dela,pode "soltar a língua"dele!


    Enfim....só o fato de ele estar preso....já é alguma coisa! Até quando?????? Até que o "bocudo" resolva solta-lo!


    Parabéns pela coragem! Vc n/ citou nomes. Nem precisava!


    Boa semana!


    Claudete

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  5. Leda Valéria Basile1:34 PM

    Sensacional, Marcelo Pirajá Sguassábia, que bom ter conhecido você aqui. Sorte toda minha

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  6. Liliane Cristine1:37 PM

    O título já está perfeito!

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  7. Clotilde Fascioni1:40 PM

    Hahaha o trocadilho do título já me deduziu... mas pensa bem que as garrafas que ficaram em casa, aguadando sua volta, terão envelhecido doze anos. Serão verdadeiras preciosidades para os apreciadores de destilados, se é que pinga fica melhor velha ou nova também não sei.
    Bem de qualquer maneira achei a ideia de canalizar o alcool bem interessante e também serviria para pinga. Era só fazer uma conexão sanasa/buteco da esquina... sei lá; são tantas idéias que até parece que eu bebi também.
    Bom domingo meu amigo Marcelo Pirajá Sguassábia e Feliz dia das Mães.♡♡

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  8. Rita Lavoyer1:42 PM

    Marcelo, você entrou pelas veias do fato, do personagem em questão. Verdade psiquiatriamente comprovada que abstinência , nesse caso, tem poder atômico. è vier para ver.

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  9. Jorge Cortás Sader Filho1:42 PM

    Quer saber? Há proteção! Duvido que mesmo os federais não ajudem um pobre coitado. Ele apenas sonhou! E afanou. Abração, Marcelo.

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  10. Antoniazi1:43 PM

    Então Marcelo Pirajá Sguassábia. Na nova moradia o morador tem que abster-se da bebida alcoolica e, também, de outras coisas. Assim, não só deve ser impedida a entrada de bebidas como, também, de visita feminina. Aquela senadora tem que ser afastada, Senão vão matar o homem de ansiedade.

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  11. Anônimo6:15 PM

    Fico imaginando o molusco enrolado tentando dobrar alguém para trazer uma 51 pra ele.

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