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Mostrando postagens de Junho, 2018

JOÃO DÁ BOBEIRA

- Tá gravando?

- Sim, podemos começar.

- Amigo ouvinte, estamos aqui com o empresário Diógenes Skrauts, dono da maior indústria de infláveis do país, que responde por mais de 80% da produção de joões-bobos brasileiros. Tudo certo com o senhor?

- Tudo bem. Satisfação enorme em participar do seu programa.

- Bom, minha primeira pergunta é sobre o carro-chefe da empresa. Sabemos que o boneco produzido por vocês é um clássico, porém levando em conta o perfil da crianças de hoje, é preciso admitir um certo envelhecimento do produto... A impressão que dá é foi-se o tempo.

- Correto. Tanto que a versão clássica nem existe mais. A crise e as mudanças nos hábitos de consumo nos levaram a novos públicos e nichos de mercado. Joões-bobos caracterizados de políticos, de Presidente da República, de Judas (vendas sazonais para sábados de aleluia), de jogadores de futebol decadentes, enfim... Produzíamos também um modelo em que você tinha a opção de colocar rostos de desafetos, para socar à vontade.

- E aí?

ALERTA: RICARDÃO À FRENTE

Pois então, veja como são as coisas. Eu era um daqueles sujeitos com colete refletivo e bandeira de advertência em mãos, à beira da rodovia, sinalizando desvio, obra ou acidente à frente.

Para quem gosta de trabalho metódico e 100% previsível, ganhar a vida fazendo o que eu fazia era estar no paraíso. Ou, pelo menos, na estrada que leva a ele. 

Mas nem tudo é perfeito. O movimento ininterrupto do braço direito chacoalhando a bandeirinha para cima e para baixo me presenteou com uma LER, depois de um ano e meio de serviço. Foram quatro meses de licença médica, e voltei à labuta com a recomendação do fisioterapeuta de não movimentar o braço, apenas deixá-lo esticado, pois o vento batendo na bandeirinha já bastava para a sinalização.

Um dia tentei variar o braço, empunhando a bandeira com o esquerdo. Mas aí me dei conta de que ficava de costas para os motoristas, o que me valeu uma senhora raspança do meu supervisor imediato. Disse na ocasião que a minha falta era dupla - de educação, por nã…

Ó DE CASA!

A labuta acontecia no aconchego do lar, gostava e nem se lembrava mais do tempo em que não era assim. Full-time home-office, desde 1996, no quartinho de empregada promovido a escritório. 

No começo passava por fax os cálculos, análises, avaliações, laudos e relatórios, depois via email, skype, messenger e whatsApp. A cadeira veio da Etna, a mesa da TokStok, o computador do Submarino, o telefone sem fio da Americanas ponto com.

Visto em público pela última vez em novembro daquele remoto 96, quando consultou um médico para examinar umas estranhas brotoejas no pescoço, justificou a saída em seu diário como se fosse uma falta grave a ser redimida.

Pedia as compras de mês pelo Extra Delivery, os remédios pela Ultrafarma, uma faxineira a cada 20 dias pelo diaristaonline. Por se tornar inútil, vendeu o Escort XR3 que tinha com um anúncio no Mercado Livre. 

Uma máquina de cortar cabelo chegou pelo shoptime em meados de 2012, eliminando do rol de despesas mensais fixas o cabeleireiro em domicílio.

REZADORES

Se há carpideiras, por que não há rezadores?

Desde que executada com a responsabilidade e o respeito que todas as religiões merecem, e desde que também aceita de boa vontade pelas diferentes esferas da corte celeste, talvez a ideia vingasse nesse estranho mundo de meu Deus.

O ofício dos rezadores (pelo menos o que imaginei) se aproxima muito do das mulheres carpideiras, pagas para chorar os finados - sem que tenham nutrido por eles a mínima simpatia ou tido, em vida, vínculo de parentesco ou ao menos de vizinhança.  

Os rezadores fariam as vezes de quem teria que rezar, cumprindo  a obrigação de outro. Seja uma penitência estabelecida por padre no confessionário, seja simplesmente para fazer a reza no lugar do freguês, em intenções diversas designadas por ele.

Dois fatores se somam para que os rezadores já chegassem se apossando de um contingente enorme de interessados nos seus préstimos. Por um lado, temos a escassez de tempo das pessoas. Por outro, o interesse cada vez maior delas por e…