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Mostrando postagens de Setembro, 2018

FÁBRICA DE NUDES

Eu não vou te estuprar, dona. Só quero que tire a roupa devagarinho, mas juro por todos os meninos do meu barraco que não vou relar um dedo na sua pessoa, tá me entendendo? Eu sou contra esse negócio de ganhar na porrada, na ameaça, no cano do três oitão, sabe como é?

Então, agora é só ir me obedecendo que em dois minutos tá dispensada. Te devolvo sem um arranhãozinho, sem um descascado no esmalte da unha.

Me dá o celular. Isso, com calma, não precisa tremer, vai abrindo a bolsa. Nenhum movimento brusco, me faça essa gentileza. Não gosto de violência, não quero ser bruto com a senhora, de jeito nenhum.

Sabe, dona, desse momento eu só quero lembrança boa. Os meninos lá no meu barraco estão com uma fome do cão, mas isso não me dá o direito de sair matando pra conseguir um dinheirinho - o pouco que baste pra que a barriga deles ronque um pouco menos. O que eu ganho é pro gasto, não sou ambicioso, longe de mim querer ficar rico fazendo isso. É só pros mantimentos, mesmo.

Outros tempos, dona, …

BARBA, PRA QUE (NÃO) TE QUERO

O Paulo Coelho sem cavanhaque, o Roberto Carlos de barba, o Sigmund Freud imberbe e com rosto de bumbum de neném. De adorno facultativo, a barba (ou a sua falta) não tem nada: ela compõe a personalidade de maneira marcante. 

Mas dá trabalho. E difícil é saber o que é mais cansativo - manter o rosto liso ou a barba no esquadro e na altura desejada. Felizmente, soluções redentoras estão chegando ao mercado.

Uma delas é um preparado que entope os folículos pilosos, impedindo o crescimento de pelos. O processo é irreversível. Nunca mais o sujeito que fizer essa laqueadura capilar verá nascer uma penugem que seja no seu rosto. Tudo muito prático, rápido e definitivo, poupando preciosos minutos diários aos não-lenhadores.

Já o tônico batizado de "Parejá" no nordeste, e exportado como "StopNow" para 19 países, promete efeito ainda mais revolucionário. Uma vez aparada a barba na altura e com os contornos bem definidos, o camarada besunta a fórmula no rosto como se fosse uma l…

MELHOR E ETERNO AMIGO

O primeiro cachorro a gente nunca esquece, ainda que o quadrúpede já tenha virado adubo há muito tempo. Tudo bem que existe uma natural transferência da estimação que se tinha ao bichinho para o outro que invariavelmente chega a fim de ocupar seu lugar. Mas o primeiro tende a ser mais especial que os demais, não há como negar isso.

O que pouca gente se dá conta é possibilidade de mantê-lo indefinidamente, mesmo que não seja a rigor o mesmo bicho.

A primeira alternativa é o processo natural, ou seja, a cruza do cãozinho que se deseja perpétuo com alguma fêmea da mesma raça ou muito parecida com o macho. As chances de reprodução e de geração de inúmeras ninhadas dependerá somente das oportunidades de acasalamento. Tendo em vista que cada ninhada produz em geral de quatro a sete filhotinhos, numericamente os descendentes se acumularão em progressão geométrica. Talvez ninguém nunca tenha pensado nisso, mas é perfeitamente possível que dezenas de gerações de uma família tenham como cães de g…

PENÚLTIMA MORADA

- Maluca essa história da morte do coveiro, heim?
- Nossa, nem fala. Sem querer o cara cavou a própria cova. Só de pensar eu fico arrepiado. O buraco já tinha mais de dois metros e meio quando ele teve o piripaque. Parece que foi infarto. Caiu lá embaixo, fraturou o crânio e por ali talvez acabasse ficando, se não sucedesse o imbroglio que veio depois.
- Eu fiquei sabendo meio por alto, não sei de detalhes, não.
- E olha que ele tinha onde cair morto, meu camarada. Aliás, melhor lugar impossível para se cair morto. Uma sepultura perpétua numa quadra nobre do Cemitério da Consolação. Bem no filé mignon, onde só tem celebridade e aquelas dinastias quatrocentonas lá da capital.
- Herança de família?
- Sei lá... eu pensei nisso mas descartei a possibilidade. Se fosse, o cara seria herdeiro de outras coisas, não só o terreno no cemitério famoso. E sendo rico não seria coveiro, muito menos aqui nesse fim de mundo. 
- Lá isso é.
- Quando a fatalidade aconteceu, o defunto da vez estava na boca da co…

O ÚLTIMO A SAIR APAGUE A LUZ

Tudo bem, só que o interruptor não funciona e é preciso entrar com um protocolo na concessionária de energia para solicitar uma averiguação, ainda a ser agendada, a fim de determinar a real causa do problema. 

Há apenas três (e não quatro) parafusos fixando o espelho do interruptor na parede - um forte indício para que se cogite crime de apropriação indébita. Suspeitas recaem ainda sobre um certo ex-presidente, que teria se apoderado do referido parafuso semanas antes de deixar o Palácio, escondendo-o em um sítio no interior de São Paulo.

A esquerda argumenta que apagar a luz é ato arbitrário, de natureza unilateral, não condizente com a moderna democracia que o país vem se esforçando por consolidar nos últimos anos. 

A direita rebate de forma veemente a insinuação, afirmando que o problema de mau contato apresentado pelo aparelho se deve à polarização provocada pelas alas mais radicais dos socialistas, fazendo com que o polo positivo e o negativo entrem em curto, causando um apagão ao m…